Trabalho

Trabalhadores da Flórida sem proteção contra calor extremo

Em uma tarde quente de julho passado, uma trabalhadora de viveiro de plantas tropicais chamada Sandra desmaiou enquanto dirigia um trator ao ar livre por uma estrada pública entre campos em Homestead, no sul da Flórida. Sua visão escureceu e o corpo cedeu, mas o trator seguiu em movimento. Após um momento assustador, ela recuperou o controle e parou no acostamento.

Em seguida veio a parte mais perigosa — pelo menos para seu emprego. Ela decidiu fazer uma pausa sem a permissão do patrão. “Eu disse a mim mesma: ‘Que o chefe fique bravo.’ Vou descansar um momento”, contou Sandra, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome para evitar represálias no trabalho. “Estava quente demais para continuar.”

2 milhões de trabalhadores sem proteção

Como Sandra, 2 milhões de floridianos trabalham ao ar livre durante os dias mais quentes do verão. Nenhum deles é protegido por leis municipais, estaduais ou federais de segurança no trabalho que garantam acesso a água, sombra e descanso em dias perigosamente quentes.

A legislatura da Flórida proibiu cidades e condados de criar proteções trabalhistas em 2024. Agora, o governo federal está recuando nos esforços iniciados sob a administração Biden para criar padrões federais de calor e reduzindo inspeções no local de trabalho, segundo reportagem do New York Times.

Isso deixa os trabalhadores da Flórida sem fiscalização governamental em nenhum nível enquanto enfrentam dias de verão cada vez mais quentes. O estado se tornou o principal exemplo nacional dos riscos que trabalhadores ao ar livre enfrentam com o aumento das temperaturas — e um laboratório de novas táticas para convencer empresas a oferecer políticas voluntárias de proteção.

Trabalhadores morrem de calor quase todo verão

Dezenas de trabalhadores americanos morrem de doenças relacionadas ao calor todos os anos e milhares ficam feridos, segundo estatísticas federais. Esses números provavelmente subestimam o impacto real, já que trabalhar sob o sol contribui gradualmente para doenças crônicas como insuficiência renal e aumenta o risco de acidentes como quedas e colisões. Na Flórida, o calor mata um trabalhador quase todos os verões.

OSHA ocasionalmente multa empresas quando um funcionário morre de calor. Multas recentes na Flórida variaram de US$ 15.625 pela morte de um jovem de 28 anos em seu primeiro dia de trabalho em 2023 a US$ 30.651 por “violações graves” repetidas que levaram à morte de um homem de 41 anos em 2024. O número de inspeções de calor no trabalho subiu de 2022 a 2024, mas neste ano o Departamento do Trabalho eliminou as metas mais altas de fiscalização.

Miami-Dade tentou aprovar lei e foi barrado

Lobistas de fazendas e empresas de construção argumentaram em 2023, quando os comissários do condado de Miami-Dade consideravam um projeto que exigiria pausas de 10 minutos a cada duas horas em dias quentes. Os CEOs da Costa Farms e da Related Group chamaram o projeto de “crise existencial” para a agricultura e construção.

Embora os comissários tenham aprovado o projeto por unanimidade na primeira leitura, mudaram de posição antes da votação final. “Esta lei poderia matar a indústria”, disse a comissária Danielle Cohen Higgins. Após a maioria anunciar voto contra, os patrocinadores adiaram a votação, que nunca aconteceu. Meses depois, a legislatura estadual aprovou uma lei proibindo qualquer cidade ou condado da Flórida de criar proteções trabalhistas contra calor.

O governador Ron DeSantis disse em coletiva que assinou a lei para bloquear o esforço de Miami-Dade, que segundo ele “causaria muitos problemas”.

Trabalhadores se organizam sem apoio do governo

Com poucas alternativas, trabalhadores estão organizando protestos e boicotes para pressionar empresas a fornecer água e descanso. O modelo vem dos agricultores de Immokalee, na Flórida, que conquistaram algumas das proteções contra calor mais fortes dos Estados Unidos.

Os agricultores de Immokalee criaram o programa Fair Food Program, que hoje cobre mais de 25 mil trabalhadores em 23 estados e três países. Quatorze varejistas, incluindo Walmart, Trader Joe’s e Burger King, concordaram em não comprar de fazendas que violem as regras. Desde agosto, fazendas participantes também devem oferecer bebidas com eletrólitos durante todo o ano.

Em Homestead, o grupo WeCount! organiza trabalhadores de viveiros na campanha Planting Justice, que busca criar um programa semelhante para plantas ornamentais. Mais de 2 mil pessoas já escreveram para a Costa Farms — a maior produtora de plantas do país, sediada em Homestead — pedindo que seja a primeira a aderir.

“Não há como falar da luta por proteções contra calor no país sem falar sobre a Flórida”, disse Oscar Londoño, codiretor da WeCount!. “Enquanto o governo não age, estamos garantindo proteções que salvam vidas.”

Fonte: WLRN Miami

Giovanna Stenner

Jornalista brasileira e correspondente internacional morando nos Estados Unidos desde 2019.

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